O Inquisidor, conhecido por muitos Thedosianos como o Arauto de Andraste.

“Por quase mil anos, o mundo acreditou estar nas mãos do Criador. E agora muitos acreditam que você é o agente de Sua vontade. Qualquer que seja a verdade, essa crença lhe dá poder”

– Madame de Fer Vivienne

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Introdução

por Ivan Cardoso

 

Durante minha pesquisa para o desenvolvimento de um livro um escritor me recomendou a leitura de A Jornada Do Escritor de Christopher Vloger. A obra é uma referência fundamental para escrever histórias e compreender os personagens. O leitor deve estar se perguntando qual a relação entre esse livro e a série Dragon Age, eu explico, há uma análise dos arquétipos como faceta da personalidade do herói, dentre os quais está o conceito de arauto. O texto é fundamental para compreender a escolha do arauto pela Bioware como emanação do personagem principal em Dragon Age Inquisition. Leia a íntegra da transcrição da página 75 do livro.

Arauto

“Se você o construir, eles virão.”
A Voz, em Campo dos sonhos, roteiro de Phil Alden Robinson a partir do romance Shoeless Joe, de W.P. Kinsella

É comum que apareça no primeiro ato uma força que traduz um desafio ao herói. É a energia do arquétipo do Arauto. Como os arautos da cavalaria medieval, os personagens do Arauto lançam desafios e anunciam a vinda de uma mudança significativa. Os arautos da cavalaria tinham a responsabilidade de acompanhar as linhagens e conhecer as cotas de armas. Desempenhavam o papel importante de reconhecer quem era quem, identificando as pessoas e suas relações em batalhas, torneios e em grandes ocasiões oficiais, como casamentos. Eram os encarregados do protocolo, na época. No começo da guerra, um arauto podia ser chamado para recitar as causas do conflito. Ou seja, para fornecer sua motivação. Em Henrique V, de Shakespeare, os embaixadores do Delfim (príncipe coroado) da França atuam como arautos, quando trazem ao jovem rei da Inglaterra o presente insultuoso de bolas de tênis, o que deixa implícito que o jovem rei Henrique só serve para coisas frívolas, como jogos de tênis. A aparição desses arautos é a faísca que desencadeia a guerra. Mais tarde, o personagem de Mountjoy, o Arauto do Delfim, conduz as mensagens trocadas pelo rei Henrique e seu senhor durante a crucial batalha de Agincourt.

Numa construção típica, na fase inicial de uma história, os heróis de alguma forma “iam levando”. Levavam uma vida um tanto desequilibrada, por meio de uma série de mecanismos de defesa ou de tolerância. De repente, entra na história uma nova energia que torna impossível que o herói simplesmente continue a “ir levando”. Uma nova pessoa, condição ou informação desequilibra de vez o herói; daí por diante, nada, nunca mais, será igual. É preciso tomar uma decisão, agir, enfrentar o conflito. Foi entregue um Chamado à Aventura, geralmente por um personagem que é a manifestação do arquétipo do Arauto. Os Arautos são tão necessários na mitologia que o deus grego Hermes (o romano Mercúrio) foi destinado a expressar essa função. Hermes aparece em toda parte como o mensageiro ou Arauto dos deuses, desempenhando alguma tarefa ou levando algum recado a mando de Zeus. No começo da Odisséia, Hermes, a pedido de Atena, leva uma mensagem de Zeus à ninfa Calipso, para que ela liberte Odisseu (Ulisses). O aparecimento de Hermes como Arauto é que põe a história em movimento.

Função psicológica: chamar à mudança

Os Arautos desempenham função psicológica importante, ao anunciarem a necessidade de mudança. Algo no nosso íntimo sabe quando estamos prontos para mudar, e nos envia uma mensagem. Pode ser uma figura de sonho, uma pessoa real ou uma nova idéia que encontramos. Em Campo dos sonhos, é a Voz misteriosa que o herói ouve, a dizer: “Se você o construir, eles virão.” O Chamado pode vir de um livro que lemos, ou de um filme que vimos. Mas algo dentro de nós é tocado, como um sino que leva um golpe, e as vibrações resultantes espalham-se por nossa vida, até que a mudança seja inevitável.

Função dramática: motivação

Os Arautos fornecem motivação, lançam um desafio ao herói e desencadeiam a ação da história. Alertam o herói (e a platéia) para o fato de que a mudança e a aventura estão chegando.
Um exemplo do arquétipo do herói como motivador num filme pode ser o de Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Cary Grant faz o papel de um agente secreto, tentando atrair para uma causa nobre Ingrid Bergman, a filha de um espião nazista. A um só tempo, ele oferece a ela um desafio e uma oportunidade. Ela pode superar sua má reputação e a vergonha da família dedicando-se à nobre causa de Cary. (No fim das contas, a causa acaba não sendo tão nobre, mas isso é outra história.)
Como a maioria dos heróis, o personagem dela tem medo da mudança e reluta em aceitar o desafio. Mas Grant, à maneira de um arauto medieval, faz a moça recordar seu passado e dá a ela motivação para agir. Faz com que a moça ouça a gravação de uma discussão que ela teve com o pai, na qual renunciava à espionagem dele e declarava sua lealdade aos Estados Unidos. Confrontada com a prova de seu patriotismo, ela aceita o Chamado à Aventura. Está motivada.
O Arauto pode ser uma pessoa ou uma força. A chegada de uma tempestade ou dos primeiros tremores de terra, em filmes como Furacão ou Terremoto, pode ser o Arauto da aventura. A queda da bolsa de valores ou a declaração da guerra já puseram várias histórias em marcha.
É comum que o Arauto seja apenas um modo de levar ao herói a notícia de uma nova energia que irá afetar o equilíbrio. Pode ser um telegrama ou um telefonema. Em Matar ou morrer, o Arauto é um telegrafista que conta a Gary Cooper que inimigos saíram da cadeia e estão a caminho da cidade para matá-lo. Em Tudo por uma esmeralda, o Arauto para Joan Wilder é um mapa do tesouro que chega pelo correio, e o telefonema de uma irmã dela, mantida como refém na Colômbia.

Tipos de arauto

O Arauto pode ser uma figura positiva, negativa ou neutra. Em algumas histórias, é um vilão ou seu emissário, talvez lançando um desafio direto ao herói ou tentando enganá-lo, para que ele se envolva. No filme Arabesque, o Arauto é o secretário particular do vilão, que tenta atrair para o perigo o herói — um professor universitário de poucos recursos —, com uma oferta de trabalho tentadora. Em alguns casos, um Arauto vilão pode anunciar o desafio diretamente à platéia, mas não ao herói. Em Guerra nas estrelas, a primeira aparição de Darth Vader, quando ele captura a princesa Leia, revela ao público que alguma coisa está desequilibrada, mesmo antes que o herói, Luke Skywalker, entre em cena.
Em outras histórias, o Arauto é um agente das forças do bem, chamando o herói para uma aventura positiva. A máscara de Arauto pode ser usada, temporariamente, por um personagem que encarna primordialmente algum outro arquétipo. Um Mentor muitas vezes age como Arauto, desafiando o herói. O Arauto pode ser a amada do herói, ou um Aliado, ou ainda alguém neutro, como um Pícaro ou um Guardião de Limiar.

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O arquétipo do Arauto pode entrar em cena em praticamente qualquer ponto da história, mas é empregado com maior freqüência no primeiro ato, para ajudar a impelir o herói à aventura. Seja um chamado interior, um desenvolvimento externo ou um personagem com notícias de mudança, a energia do Arauto é necessária em quase toda história.

Referência

VOGLER, Christopher. A jornada do escritor : estruturas míticas para escritores / Christopher Vogler ; tradução de Ana Maria Machado. – 2.ed. -Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2006