Por Yasmin Alves (De Lua e Tinta)

 

            Selene engomava as poucas roupas dentro do baú compartilhado com a mãe. Antes de ir ao Enforcado e encontrar-se com o anão que salvara suas economias aquele dia, tinha que cumprir suas tarefas corriqueiras. A mãe odiava esfregar as manchas de sangue e lama, então a jovem a poupava disso cuidando de suas roupas e as de Carver.

            Com a porta do quarto entreaberta, era possível ouvir o que se passava na sala do despedaçado casebre. Como Carver ainda não havia voltado e a moça estava silenciosa, passando a impressão de que estava dormindo, Leandra queixou-se em voz alta:

            — Ainda não acredito que nem mamãe deixou alguma coisa para mim. Nem mesmo uma panela.

            Gamlen rebateu ríspido:

            — Você esperava pelo quê? Você fugiu com o seu amado apóstata assim que todos nós baixamos a guarda.

            Selene começou a prestar atenção na conversa. Leandra apontou simples:

            — Eu era muito jovem, não me importava com as ameaças ou conselhos de nenhuma pessoa mais velha. Porém agora eu sou mais velha e entendo melhor.

            — Reconhece que foi loucura abrir mão de sua família e de um noivado prestigioso por um mago pobretão?

            — Não. Apenas vejo que isso foi uma escolha minha, e ninguém poderia guardar rancor por tanto tempo acerca disso sem se tornar um tolo. Eu viveria mais uma vida, se possível, apenas para encontrar Malcolm e fazer tudo de novo.

            Gamlen moveu a cabeça com desgosto:

            — Você está ficando cada vez mais louca, Leandra. Não me pergunte mais sobre os porquês de nossos pais te deserdarem. Você sabe o quão geniosa nossa mãe era.

            Tudo o que mamãe fez foi por amor, mesmo que a maior parte das pessoas não se importem mais com isso, Selene deixou um sorriso escapar para as paredes. Ela conhecia parte da história de seus pais e sempre teve curiosidade acerca dos avós maternos, mas não pôde conhecê-los em vida.

            Enquanto a moça devaneava em algumas memórias de infância, Gamlen prosseguiu com seus argumentos:

            — Os Amell sempre fugiram da maldição que a magia trouxe aos nosso ancestrais. Tudo seguiu da forma devida, até você pôr tudo a perder.

            — As coisas mudam, irmão, e ficam no passado também. O que me parte o coração é pensar que realmente me esqueceram. Sem contar que eu era a filha mais velha.

            — Que história é essa de maldição? — Selene retirou-se do aposento e surpreendeu os parentes.

            O tio suspirou:

            — Achei que sua mãe havia contado.

            Leandra fitou a filha:

            — Os antepassados dos Amell eram todos magos. Porém, aos poucos, a sina mágica se pôs a evanescer. Como começaram a surgir inúmeros conflitos envolvendo magos, fora estabelecido que os casamentos deveriam ocorrer apenas dentro da família. O rapaz a quem minha mão estava prometida era…

            — Uma pessoa normal. Mas a senhora deu os ombros e aqui estamos nós — a jovem completou com um sorriso, disfarçando o desgosto em avaliar que os avós provavelmente a evitaram por sua sina sem ela saber.

            Gamlen pôs a mão na fronte:

            — Essa conversa toda me deu dor de cabeça.

            Leandra encerrou:

            — Só sei que o que mais estimaria agora seria tê-los de volta. Nem que fosse apenas para ouvir mamãe dizer eu te avisei.

            O irmão refletiu por um instante. Assentiu:

            — Eu também.

            Selene abraçou a mãe de lado e a beijou na face:

            — Ficaremos bem.

            Carver abriu a porta, deu uma olhadela no recinto e retirou as botas enlameadas. Selene afastou-se de Leandra e informou:

            — Tenho que sair. Volto mais tarde.

            — Aonde vai? — a outra quis saber.

            — Nos tirar da forca — caminhou até a porta, encarou o irmão e ciciou: — Cuide para que eles não briguem.

            — Tome cuidado — o rapaz advertiu.

            Ela apenas acenou e partiu.

            Há um ano, quando cruzava pelas ruas estreitas taciturnas, ela tinha medo de ser surpreendida por algum marginal descarado. Não que não soubesse se defender — ela sabia muito bem graças aos ensinamentos do pai —, mas temia que alguém de fora avistasse e a flagrasse utilizando magia. Seu nome era reconhecido no submundo e desejava que ele morresse lá: em Kirkwall não havia espaço para magos a não ser no Círculo.

            — Grande piada — resmungou ao recordar-se da organização.

            Quando era criança, os infantes de sua idade a temiam e a chamavam de bruxa. Durante maior parte de seu crescimento, Selene ficara atrás dos muros da casa de seus pais, acompanhada apenas por seus irmãos. Não era à toa o vínculo formado entre eles, apesar de Carver não ter poderes e, logo, não compreender o que se passava com as irmãs.

            Foi numa dessas aventuras em magia que convoquei um familiar pela primeira vez, recordou-se nostálgica. O pequeno lobo azulado saltou na direção da fonte do jardim, a chamando para brincar. Assim que tocou na criatura, a energia se desfez numa pequena explosão, e a menina correu sem pensar duas vezes para trás da saia de sua mãe.

            Mas os anos haviam se passado, e lá estava ela caminhando na direção de outra taverna barulhenta, tentando participar de uma expedição que melhoraria a vida de sua família. E as ruas de Lowtown não a atordoavam mais.

            Em meio as memórias curiosas que vieram visitá-la naquela noite, a imagem de Flemeth surgiu. Recordar-se da apóstata não a fez estatelar: ela não se esquecera do trato feito, e o amuleto estava muito bem escondido entre seus pertences. A questão era que, apesar de estar em Kirkwall, ela ainda não era reconhecida como cidadã. Logo a Bruxa dos Selvagens teria que esperar e, talvez, contribuir para que ela estabelecesse uma vida digna ali.

            Após virar pela quinta esquina, deixando o pátio preferido dos mendigos e a pequena escola primária para trás, avistou as luzes da taverna onde Varric estava. O Grito do Louco outrora esteve naquela rua também, porém fechara suas portas após receber a visita da amazona comandante Meredith e a mulher constatar que uma gangue de Magos de Sangue se escondia no sótão para realizar reuniões.

            O Enforcado tinha como símbolo a carta homônima do tarot, mas numa versão mais sanguinária, onde a cabeça do homem pendurado pelo pé estava coberta por um saco e os braços manchados de sangue estavam amarrados para trás.

            Selene observou a tabuleta por um instante, depois empurrou a porta de madeira clara. Seus olhos levaram alguns segundos para acostumarem-se com a claridade intensa do salão. Naquela noite, o local não estava cheio: o pagamento do povo, que era precário e raro entre o próprio, viria dali cinco dias. Apenas os alcoolistas mais dedicados assentavam-se às mesas redondas com seus orgulhosos canecos de metal cheios.

            A maga olhou ao redor com atenção, procurando por algum sinal do anão. Ao aproximar-se do balcão, onde um homem de aparente meia-idade e dono de um bigode curto se encostava atrás, ouviu alguém chamá-la:

            — Ei, você.

            Ela virou-se e deparou-se com um anão ao seu lado, de aparência mais jovem que Varric. O desconhecido murmurou discreto:

            — Ele está no primeiro andar. É o único quarto que tem aqui. Me pediu para avisá-la.

            — Obrigada — Selene aquiesceu e subiu pela escadaria.

            Varric estava assentado à mesa, localizada no centro do aposento, lustrando a armação de Bianca, a besta, com cautela. Quando ouviu Hawke bater à porta, guardou a arma com zelo e solicitou:

            — Pode entrar.

            Os dois cumprimentaram-se outra vez, Varric pediu para que Selene puxasse uma cadeira, mas ela recusou gentilmente:

            — Eu estou bem, não se preocupe.

            — Ah, tudo bem — ele assentou-se. — Então vamos logo ao que importa; para entrarmos no grupo da expedição, precisamos causar uma boa impressão em Bartrand. Ele pode parecer impenetrável e doce como um limão, mas há uma coisa que ele não tem e nós temos a possibilidade grande de obter.

            — O que é?

            — Os mapas das próprias Estradas Subterrâneas, ora — Varric respondeu como se Selene já soubesse. — Podemos ter as histórias de nossos pais sobre as cavernas milenares, mas o cabeça dura de meu irmão não pode se guiar totalmente com historinhas para pequenos anões dormirem.

            — E como conseguiremos isso?

            — Já estava chegando a esse ponto, cara colega. Por sorte, soube há pouco tempo que existe um ex-Grey Warden na cidade. Um verdadeiro guia turístico pelas entranhas da terra.

            — Um Grey Warden? — Selene arregalou os olhos. — Achei que todos morreram no incidente de Ostagar.

            — Nem todos, nem todos. O povo sempre exagera — Varric bufou.

            — Onde ele está? — Selene refreou-se e se corrigiu: — Ei, eu não quero encrenca com nenhum Warden.

            — Nós não teremos. Se há uma coisa que desejo adiar até o plano Z, é erguer Bianca contra a cabeça de um Grey Warden. Ainda mais quando ele tem os mapas e o conhecimento necessário.

            Selene levou uma fração de segundos para associar Bianca com a arma do ladino. Assentou-se e inclinou-se na direção de Varric:

            — E se ele não souber ou não quiser ajudar?

            — Se ele não souber, nós entraremos na expedição da forma mais difícil. Quanto a segunda parte, já disse qual é meu derradeiro desejo.

            — Certo — a maga murmurou. — Então, onde ele está?

            Varric encostou-se folgadamente nos apoios da cadeira estofada:

            — Nós descobriremos o mais rápido possível. Existe uma mulher chamada Lirene. Ela auxilia Fereldans refugiados. Como o nosso querido ex-Grey Warden veio no meio da confusão, ninguém melhor do que ela para saber sobre ele.

            — Ele pode estar infiltrado entre o povo e passar despercebido.

            — Pelo contrário — Varric sorriu, se deliciando com as tentativas falhas de Selene ser mais astuciosa do que ele —, ele interage com o povo de Darktown e Lowtown com frequência. É uma espécie de curandeiro totalmente altruísta. Acho que daquele tipo que as mocinhas desmioladas choram apaixonadas só de olhar para ele.

            A maga fez uma careta de divertimento:

            — Agora você está exagerando.

            — Provavelmente. Você ainda está dentro? — ele entrelaçou os dedos e sorriu.

            — Claro que sim. Essa expedição valerá quase a minha vida. Podemos procurá-lo amanhã, se não for incômodo para você.

            — Ah, não mesmo. Quanto mais rápido esfregarmos na cara de Bartrand nossa utilidade, melhor — Varric gargalhou.

            Selene intrometeu-se:

            — Vocês não se dão bem?

            — Qual irmão se dá bem com o próximo?

            — Apesar dos conflitos, até agora tenho o meu ao meu lado. Mas nem todas as famílias são iguais — ela sorriu sem graça. — Desculpe, não devia ter perguntado.

            — Sem problemas — ele desdenhou. — Obrigado, Hawke.

            — Eu que agradeço — a moça sorriu.

            O que leva um Grey Warden a abandonar seu juramento?, Selene criava várias hipóteses por conta própria, durante a volta para casa. Quando despedira-se de Varric, sentira que a concordância entre ela e o anão fomentara seu desejo de obter êxito naquela empreitada, apesar do persistente temor.

            Ao aproximar-se da casa, avistou uma silhueta humana assentada nos degraus posteriores, sob a penumbra. A maga caminhou com cautela e relaxou quando reconheceu o irmão.

            Carver a saudou:

            — Olá de novo. Como foi lá?

            — Varric parece ser um bom sujeito. Ele é muito audacioso, diga-se de passagem — assentou-se ao lado do rapaz. — Ele sabe de uma pessoa que pode nos ajudar, e nós a procuraremos amanhã.

            — Ótimo — suspirou. — Não consegui nada até agora. Acho que essa maldita expedição será nossa única esperança.

            — Não acho que seja única. Deve existir outras opções, porém essa é a mais tentadora.

            — Às vezes, seu otimismo me mata — Carver grunhiu e virou o rosto.

            Selene deu os ombros:

            — Não custa nada almejar por caminhos melhores enquanto nos enveredamos por um íngreme. Apenas reclamar não nos levará adiante.

            — Me sentei aqui para respirar um ar menos mofado. Não aguento mais o odor que esse barraco carrega. Muito menos olhar para a cara de Gamlen — finalmente Carver desabafou, ainda de olhar desviado. — Ele tem nos tratado tão mal ultimamente que estou a dois passos de esmurrá-lo.

            — Me diga uma pessoa que você não sentiu vontade de bater? — não esperou por resposta. — Antes de você chegar, eles estavam discutindo sobre a herança. Acho que mamãe quer procurar pela casa e conversar com os residentes atuais.

            — Conversar não adiantará; foi uma venda, e Athenril reembolsou a parte dela. Agora estamos largados à própria sorte.

            — E trabalhar para Meeran está fora de cogitação — a maga apontou. Curvou-se sobre os próprios joelhos e analisou: — Mas parece que Gamlen está escondendo algo. Sinto isso.

            — Ele vive escondendo um monte de coisas — Carver virou-se para a moça e resmungou baixo.

            — Sim, por isso mesmo acho que devemos averiguar algumas coisas. Como mamãe disse, é meio surreal crer que vovó a deserdou pelo fato de ela ter fugido de casa.

            — Com nosso pai, que era um mago e nunca vira nem a cor da túnica dos discípulos do Círculo — o rapaz sorriu atravessado. — Acho que a segunda coisa que mais odeio nessa linhagem é essa divisão idiota entre magos e pessoas sem poderes.

            — Qual é a primeira?

            Carver hesitou. A irmã permaneceu com o olhar tranquilo sobre ele até ouvi-lo:

            — Nascer diferente de você e Bethany.

            — Isso não te torna menos do que ninguém! — a jovem protestou e sentiu um sutil aperto ao ouvir o nome da irmã.

            — Mas automaticamente me separava de vocês diante dos olhares dos outros. É estranho, mas eu queria sentir o mesmo que vocês e estar ao lado por igual. Numa batalha, na fuga, na alegria ou na dor. Ouvi Gamlen dizer que nossos avós não vieram me conhecer por causa da sina de nossa família. Eu preferiria ter nascido como mago para nunca ouvi-los dizer isso, nem mesmo em relatos póstumos.

            Carver sentiu os braços finos de Selene o enlaçarem. Gaguejou:

            — O que você está fazendo?

            — Você pode erguer uma espada ao invés de um cajado, mas será meu irmão da mesma forma. Você vê a crueldade das pessoas num ângulo diferente, porém vê. Faça como nossa mãe, dê os ombros, deixe para trás.

            — E quanto aos templários? As fofocas? Armadilhas? Isso ainda não é passado, Selene.

            — Então unamos meus truques com sua habilidade de chutar traseiros. Assim como sempre fizemos — franziu o cenho. — Não quero vê-lo debilitado assim nunca mais.

            — Um pouco difícil largar um sentimento que fora sustentado por tanto tempo. Mas vou tentar.

            Queria saber o quão profundo é seu coração, afinal nunca notei isso, Selene sorriu:

            — Esse é o espírito.

            — E quanto ao plano? — o rapaz retomou o assunto.

            A maga ergueu-se:

            — Podemos passar no antigo sótão da família e verificar o que tem por lá. Ouvi Gamlen dizer que nem todos os pertences dele estão aqui.

            — Se supostamente vovó deixou algo, você não acha que ele pode ter queimado ou… — o guerreiro refreou-se.

            — Talvez. Ir até o sótão é apenas o primeiro passo.

            — Fica onde?

            — Darktown, assim como nosso guia das Estradas Subterrâneas está provavelmente.

            Carver levantou-se:

            — Ótimo, sempre quis participar de uma caça dupla ao tesouro.

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