Por Yasmin Alves (De Lua e Tinta)

 

            E assim como fora selado, os filhos de Leandra assistiram às primeiras estações de Kirkwall sob o jugo de Athenril. Naquele período, descobriram como Gamlen perdera a casa: ele metera-se num jogo de cartas com a elfa e Meeran. Graças ao orgulho diluído em cerveja, o blefe custara o bem mais precioso que o Amell tivera na vida.

            Assim que o prazo findara-se e os Hawke reclamaram pelo motivo que os arrastou pelo submundo, tornando seu nome famoso, a surpresa veio: a herança reembolsada de Gamlen não era o suficiente para conseguirem uma nova casa em Hightown.

            — Pelo menos — o tio analisou — temos um bom começo. Basta continuarmos com nossos esforços.

            Leandra suspirou desolada:

            — Os imóveis triplicaram de preço após a destruição de Ferelden.

            Enquanto os dois discutiam e calculavam o que era necessário para ascenderem, Selene e Carver procuravam por outros caminhos para tomarem e auxiliarem a família.

            Até que uma luz surgiu, de um ponto ironicamente mais abaixo.

            — Não, não e não! Já falei que não! — o anão ruivo afastou-se irritado da dupla persistente.

            Selene apressou o passo e ficou ao seu lado:

            — Bartrand, por favor! Se você deixar, serei eternamente grata a você! Até depois dessa vida!

            Carver completou:

            — Sem contar que com o nosso apoio, você estará…

            Bartrand virou-se rude e interrompeu:

            — Pelos sovacos de Andraste, já disse que não, parem com isso. Desde que algum demônio infeliz soltou por aí a respeito da expedição, todos de Kirkwall querem minha amizade. Amo essa sinceridade.

            Selene protestou:

            — Em nenhum momento lhe oferecemos barganhas! Estamos jogando às claras; queremos participar da expedição às Estradas Subterrâneas, ajudar a proteger o grupo, sair vivos e lucrarmos um pouco com isso.

            — Juntaremos o útil ao agradável — Carver apoiou.

            Bartrand bufou. Pôs a mão na testa e indagou retórico:

            — Querem unir o útil ao agradável? Então me tragam algo realmente útil para a viagem e pensarei no caso! Tenham um bom dia — afastou-se a passos fumegantes.

            Os irmãos suspiraram. Carver resmungou:

            — Não sei o que é pior, ter um histórico de quem trabalhou no submundo ou me conter e não descer um murro numa criatura dessas.

            Selene rolou os olhos:

            — Como se isso o convencesse de nossa integridade.

            — Estou preocupado, Sel. Em especial, com você.

            A morena o fitou e notou certo constrangimento em seu rosto. Brincou:

            — Não se preocupe. Na pior das hipóteses, posso acampar em alguma caverna das montanhas.

            Carver grunhiu:

            — Estou falando sério. Antes Athenril encobria o fato de você ser uma maga, mas agora estamos vulneráveis outra vez, num lugar repleto de templários.

            A irmã cruzou os braços:

            —Como se fosse possível esconder um mago, de qualquer forma. Você sabe que tentamos, mas quando mal chegamos aqui, me expus!

            — O que eu quis dizer é que, antes, caso algo acontecesse, ela movia pedras por sua causa, afinal sua sina era a chave-mestra.

            — Quase vinte anos e você ainda não entende que quando um temp…

            Antes de Selene terminar de falar, sentiu algo puxar seu cinto e, de repente, a cintura ficou mais leve. Ao virar o rosto, viu o ladrão esgueirar-se para longe com sua bolsa e dinheiro.

            — Ah, droga! — ela correu atrás do larápio, com o irmão em seu encalço.

            Antes do rapazote virar a esquina, uma flecha cortou o ar e o prendeu pela manga na parede mais próxima. Mais duas fixaram o tecido do cotovelo e do pulso. O ladrão estremeceu de susto e largou a bolsa.

            Os Hawke pararam ao avistarem um anão munido por uma besta caminhar na direção do meliante:

            — Ouvi falar que a irmandade de ladrões de Darktown também recrutou refugiados — o atirador apanhou a bolsa do chão. — Só não imaginava que eles não fizeram nenhum teste de inteligência antes, afinal furtar da forma que você fez foi ridículo — estapeou o alvo na face. — Tente a sorte na próxima!

            O ladrão apenas assentiu a cabeça, e dois guardas aproximaram-se para detê-lo de uma vez.

            O anão caminhou na direção dos Fereldans estáticos e estendeu a bolsa para a maga:

            — Espero que ele não tenha lhe machucado no tranco que deu no cinto. Odeio esses novatos presunçosos — pigarreou. — Sou Varric Tethras, às suas ordens.

            Selene retomou seu dinheiro:

            — Obrigada.

            Varric prosseguiu:

            — Peço desculpas pela falta de bons modos de meu irmão Bartrand. Naturalmente ele é um cabeça quente, mas admito que as pessoas o têm importunado bastante. O que é normal, afinal quase metade da cidade está em maus bocados como vocês.

            Carver hesitou:

            — Você nos conhece?

            — Como não conhecer — Varric sorriu e encarou Selene. — O nome Hawke é sussurrado e exclamado todos os dias por aí. Ainda mais quando uma maga apóstata adorável está envolvida.

            — Adorável? — a moça fez uma careta. — Realmente distorcem muito as histórias.

            O anão deu os ombros:

            — De qualquer forma, não deixam de serem conhecidos.

            Só para variar, fico sob os créditos dela, Carver remoeu. Indagou firme:

            — E o que você quer conosco?

            — Conhecendo bem meu irmão como eu conheço, sei que ele pode ser convencido de deixá-los entrar na expedição se demonstrarem algo deveras útil.

            Selene verbalizou exaurida:

            — Olhe, se isso o que você está planejando envolve dinheiro, está fora de nosso alcance. Se a situação financeira não fosse o problema, nem estaríamos aqui.

            Varric moveu a cabeça numa negativa:

            — Nem pensar, não me refiro a isso. Nós não precisamos de um fiador ou patrocinador. Precisamos de colegas como vocês.

            — Então qual é o plano?

            — Unir sua força de vontade às informações que tenho. Se trabalharmos juntos, num futuro não tão distante, estaremos abastados, realizados e limpos. O que me diz?

            A maga voltou os olhos para Carver. O irmão assentiu a cabeça:

            — Ele tem um bom ponto.

            Selene refletiu por um instante: havia acabado de sair da margem obscura da cidade, desejava se mudar para um lugar melhor, porém não estava desesperada a ponto de apostar todas as suas energias no primeiro estranho simpático que aparecesse. Porém, como Carver disse, Varric tinha um grande ponto de razão.

            A moça sorriu:

            — Tudo bem, não tenho nada melhor em mente mesmo.

            O anão vibrou:

            — Excelente! Me encontre à noite na taverna O Enforcado para discutirmos os detalhes. Ou vá a qualquer outro horário, estarei lá por longos dias.

            — Certo. Até depois, então — Selene despediu-se do novo colega, que correspondeu ao gesto tanto a ela quanto a Carver e afastou-se.

            — Tudo bem, retiro o que pensei antes; anões podem ser bons aliados — o guerreiro sorriu satisfeito.

            Ah, que droga, está descascando. Preciso consertar isso, Aveline deslizava o dedo onde o emblema do escudo começou a gastar. Será que ainda tenho tinta vermelha? Acho que se eu mandá-lo a um ferreiro, será pior, analisava por si só.

            Uma voz amigável a retirou de seus pensamentos:

            — Olá, Aveline.

            — Hawke — a mulher ergueu a cabeça e sorriu, jogando o escudo nas costas. — Como vão as coisas? O que a traz aqui?

            Selene aproximou-se:

            — Continuam as mesmas, só que sem Athenril, e — que pergunta! — vim te visitar.

            Antes do contrato com a ladra encerrar, Aveline conseguira a admissão na guarda local. Em nome da amizade e da consciência das condições alheias, a nova vigilante buscara exercer sua função mantendo-se fora do caminho de Selene…

            — Eu soube que você está às botas de Bartrand. Se eu fosse você, desistiria; ele é um filho da puta — … em partes.

            A maga olhou ao redor e viu que estavam sozinhas na sala: os outros guardas estavam em patrulha ou lendo o mural de avisos do lado de fora como se fosse um mantra. Grunhiu constrangida:

            — Você sabe o quanto odeio ser espionada.

            — Não faço isso por mal. Não posso ficar por perto o tempo todo, sem contar que o povo tem uma língua rápida.

            — E seus colegas também, presumo — a morena sorriu atravessado.

            Aveline retrucou:

            — Eu os peço quando estão por Lowtown — suspirou e admitiu: — Sei que você não é mais uma criança, porém eu gosto de zelar pelo bem-estar de meus amigos. Você não é exceção. Nem Carver. Aliás onde ele está?

            — Procurando por algum emprego decente. Quanto às suas justificativas, saiba que o cuidado é recíproco — a moça assentiu a cabeça. — Você está gostando de trabalhar aqui?

            — Não é o emprego dos sonhos, mas tem os pontos positivos. Embora, ultimamente, eu esteja com um mau pressentimento. Acho que precisarei de sua ajuda.

            — O que é?

            — Há algumas semanas, as escalas de patrulha estão em modo solitário. O capitão envia um por ponto, ao invés de dois ou três, à noite. De acordo com ele, o governo precisa reduzir gastos, mas os guardas estão sendo atacados por foras-da-lei em grupos muito grandes. Parece tudo premeditado.

            — Vocês já falaram com ele acerca disso?

            — Falar com uma cabra seria mais eficiente — Aveline riu nervosa. — Ele disse que entrará em breve com providências, mas ninguém aqui quer que mais alguém seja espancado… ou morto.

            Selene sentou-se ao lado dela:

            — Onde foi o último local que isso aconteceu?

            — Nas trilhas pelas colinas fora da cidade. Você me ajudará?

            A maga respondeu sincera:

            — Preciso apenas de um tempo para organizar alguns problemas pessoais, mas garanto que serei mais eficiente do que o capitão da guarda — piscou um olho. — Tudo em nome da amizade e boas fraturas em pescoços criminosos.

            A amazona zombou:

            — Até uma velhinha com problemas de coluna é mais eficiente do que ele — ambas riram. — Obrigada, Hawke. Me avise quando estiver pronta; confio em você, mas tenho que vê-la de perto.

            — Você será a primeira a saber. Não te deixaria fora dessa.

            — Sem querer ser rude, mas isso não tem a ver com a amizade. Agora sou também uma representante da guarda.

            A maga ergueu-se, se pôs à frente da loira e encenou uma reverência:

            — De burro de carga de uma ladra a braço direito de serah Vallen? Que bom saber que não estou mais num nível abaixo do aceitável pela segurança pública — pausou. Disse a parte: — Não tanto quanto o antes, pelo menos.

            A vigilante rolou os olhos e levantou-se:

            — Você nunca foi.

            Selene verbalizou sarcástica:

            — Fale isso para os caçadores de recompensa ou para os templários. Você se surpreenderá com a resposta.

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