Por Yasmin Alves (De Lua e Tinta)

            — Leandra! Os anos foram gentis com sua beleza! — Gamlen abriu os braços e acolheu a irmã.

            Ela brincou:

            — E você continua mentiroso. Como é bom te ver.

            — Eu que o diga. Soube o que aconteceu em Lothering. Sinto muito — Gamlen afastou-se de Leandra e caminhou na direção dos sobrinhos. — Carver e Selene, como vocês cresceram. Faz mais de cinco verões que não os vejo.

            Carver meneou a cabeça:

            — Olá, tio.

            Gamlen retribuiu o gesto e, em seguida, fitou Selene com um sorriso:

            — E você está mais parecida com sua mãe, assim como ela é com sua avó.

            — Sinal de que não sou adotada, não? — a jovem fingiu aborrecimento.

            — Até a língua afiada — ele riu nervoso. Finalmente reparou na presença de Aveline ali.

            A loira apresentou-se:

            — Aveline Vallen. Vim com sua família desde os arredores de Ferelden.

            — Ah, sim. Mas onde está Bethany? — o homem olhou para os parentes.

            Os irmãos trocaram olhares entristecidos. A mãe respondeu sutil:

            — Ao lado de Malcolm, no Esquecimento.

            Gamlen constrangeu-se:

            — Meus sentimentos — disse à parte: — Não deveria ter perguntado.

            — Já foi — Carver respondeu com frieza.

            Gamlen caminhou até a irmã e expôs sincero:

          — Leandra, querida, não posso deixá-los ficar comigo. O visconde está com olhos em todos os lugares nessa cidade.

            Selene sugeriu:

            — O senhor já tentou falar com ele?

            — Na verdade, ele não quer me ver na frente.

            Carver franziu o cenho:

            — O que houve?

            Leandra indagou perplexa:

            — E a casa que papai deixou?

            Gamlen engasgou:

            — Bem… Eu… passei por problemas. Tive que vendê-la.

            — Vendeu?! — os Hawke pasmaram.

            — Os negócios iam mal, me enveredei por um caminho tortuoso… Mas agora sou um homem transformado.

            — E sem-teto, eu presumo — Selene cruzou os braços com impaciência.

            O tio a corrigiu ríspido:

            — Tenho uma casinha em Lowtown. Mas nem tudo está perdido. Há uma proposta interessante para vocês e que pode ajudar a todos nós.

           Carver desconfiou:

            — O que seria?

            — Quando eu me envolvi nesses caminhos obscuros, tive que vender a herança para pagar uma aposta. Há pouco tempo, as pessoas que a ganharam — elas repartiram o dinheiro — disseram que podem consegui-la de volta ou me reembolsar.

            — Qual é a condição? — Leandra questionou.

            — Trabalhar para algum deles por um ano. Mas estou tão velho…

            Selene apontou:

            — Então você quer que recuperemos a propriedade? Como faríamos isso se não ficaremos aqui por muito tempo?

            — Eles podem dar um jeito em qualquer coisa.

            Leandra meneou a cabeça com desgosto:

            — Olhe onde você foi parar.

            — Eu sei — Gamlen sorriu constrangido.

            Aveline murmurou:

            — Trabalhar para criminosos…

            — Até Serah Vallen pode se juntar, se quiser — o velho encolheu os ombros.

            Selene indagou:

            — Quem são?

            — Os mercenários Red Iron, de Meeran, ou o grupo de ladinhos de Athenril.

            Carver ironizou:

            — Que opções maravilhosas nós temos.

            Gamlen ignorou a provocação:

            — Só posso oferecer isso para livrá-los dos navios para refugiados.

            A maga fitou Leandra, pedindo por uma palavra:

           — Mãe?

           A mulher ergueu o semblante inconformado e oscilou por um instante. Por fim, suspirou:

            — Temos que fazer o que é necessário.

            Carver refletiu:

            — Sei que não temos muitas escolhas, mas começar em Kirkwall com um pé nas sombras não é nada agradável ou seguro.

            Selene apenas aquiesceu, de braços cruzados. Aveline expôs sincera:

           — Desde o início de minha vida não fui a favor de qualquer ilegalidade, mas agora… Isso é uma situação delicada.

            A maga a fitou curiosa:

            — Você trairia seus próprios princípios por um pedaço de pão?

            — Não tenho família como você, Hawke. Não me orgulho por ter que avançar desta forma, mas é o que temos em nosso alcance por hora — a amazona defendeu-se.

            O guerreiro do grupo cedeu:

            — Ela está certa.

            Selene sabia que retrucar apenas deixaria o clima mais tenso e gastaria o tempo útil para procurarem por uma das opções dispostas por Gamlen. Inspirou fundo e perguntou:

            — Como é o trabalho de Athenril?

            — Jogo sujo. Acho que isso resume bem. Se não fosse pela astúcia dela, estaríamos discutindo sobre o clima dentro da casa que seu avô me deixou — Gamlen respondeu simples.

            Aveline devaneou:

            — Trabalhar para ladinos deve ser menos brutal do que para mercenários — pausou. — Deuses, eu realmente disse isso?

            Carver ignorou as reflexões alheias e pediu pela informação crucial:

            — Onde ela está?

            Pela primeira vez, Gamlen olhou para os lados antes de responder. Aproximou-se dos sobrinhos e revelou:

            — Em Lowtown há uma taverna chamada O Grito do Louco. Ela sempre está por lá.

            — Como iremos até lá se ainda não temos permissão para passar pelos portões? — Selene arqueou uma sobrancelha.

            Gamlen piscou um olho com divertimento:

            — Ah, criança, ainda não aprendeu que a noite e a lua são amigas dos fugitivos? — voltou ao semblante sério. — Quando o anoitecer chegar, trarei algumas coisas para vocês. Apenas peço que aguardem e confiem em minha palavra.

            Após o tio deixar algumas moedas de prata com Leandra e afastar-se, Selene resmungou alto o suficiente para o grupo ouvir:

            — E tente não vender as calças no meio do caminho.

            Assim que a lua minguante ascendeu pelos céus, por trás dos prédios destroçados de Lowtown, o trio de viajantes estava diante da taverna indicada por Gamlen. O velho voltara no início do anoitecer como o prometido, entregara capas com capuzes negras para os jovens e instruíra os sobrinhos e Aveline que entrassem pelas sombras dos portões enquanto ele distraía os guardas.

            Um ótimo ator, Aveline concluíra assim que adentraram Hightown sem empecilhos.

            Após guiarem-se pelo mapa velho de Gamlen, finalmente chegaram às portas de seu destino. Carver abriu a porta e a segurou, até Aveline e Selene entrarem. A luz das dezenas de velas espalhadas os ofuscou por um breve momento.

            Assim que as pupilas ajustaram-se, uma estranha calma os envolveu naquele ambiente espalhafatoso: elfos, pessoas de classe baixa e templários bêbados agiam de forma despreocupada, rindo, bebendo, cantarolando, flertando com as moçoilas que trabalhavam no estabelecimento.

            Selene murmurou:

            — Acho que podemos tirar os capuzes.

            Aveline advertiu:

            — Os templários estão bêbados, não com amnésia.

            Naquele momento, duas figuras misteriosas como eles passaram ao lado. Os Hawke notaram as lágrimas escorrendo pelas bochechas da menor, enquanto o outro rosnava:

            — Um dia nós nos vingaremos daquela elfa vagabunda. Não chore, Lucy, daremos um jeito de ficar.

            Carver concluiu:

            — Ela está por perto.

            As moças do trio apenas menearam as cabeças.

            O grupo moveu-se entre as mesas, procurando por Athenril a partir das referências físicas informadas por Gamlen. Alguns minutos de busca silenciosa foram o suficiente para Aveline avistá-la: num canto soturno, com o apoio da cadeira encostado na parede, cercada por pessoas esguias, com a mesa repleta de garrafas vazias.

            Assim que aproximaram-se, os colegas da elfa viraram-se e os encararam com desconfiança. Athenril os analisou de alto a baixo em silêncio. Por fim, estalou a língua:

            — Não estamos recrutando no momento.

            Selene não perdeu tempo:

            — Gamlen nos enviou até você.

            Uma faísca de interesse nasceu no olhar azul celestial da elfa de cabelo louro:

            — Gamlen? — refletiu por um instante. — Espere um pouco, você é a garota mágica dele?

            A maga conteve a resposta atravessada e corrigiu em voz baixa:

            — Meu nome é Selene Hawke. Este é meu irmão, Carver, e minha amiga, Aveline.

            A amazona não soube ao certo o que sentir: constrangimento pela ladina falar em voz alta despreocupadamente ou conforto quando a maga a chamou de amiga, mesmo que o pronome fosse apenas força de expressão.

            Athenril indagou:

            — Meeran já os espantou?

            Carver respondeu:

            — Preferimos vir até você.

            — Vocês não fazem ideia do fardo que pegaram — ela entonou as palavras de uma forma ameaçadoramente dócil.

            Selene franziu o cenho:

            — O que precisamos fazer para estarmos dentro?

            — Eu poderia dizer que não há nada, afinal não estamos recrutando ninguém para o grupo. Não até esses refugiados desesperados como baratas irem embora. Mas vocês têm uma exceção. Embora — a elfa fitou Aveline — sua passagem livre não inclui amiguinhos.

            Um dos assentados comentou:

            — Sem contar que ela usa armas de templário. Seríamos facilmente reconhecidos.

            A amazona protestou:

            — Posso me defender até mesmo com uma garrafa vazia, se necessário. Não me escondo atrás de arma nenhuma; elas apenas se unem a mim.

            O ladino desviou o olhar com vergonha. O restante do grupo riu nervoso.

            Athenril assobiou:

            — Ora, ora, então temos uma valentona forte aqui? Admito pra vocês; alguém que maneja escudo e espada ao mesmo tempo é dotado de uma disciplina da qual ninguém aqui faz parte. Tudo bem, você pode tentar a sorte com os Hawke.

            Carver retomou o assunto:

            — E o que devemos fazer?

            A elfa respondeu sem escrúpulos:

            — Como vocês devem imaginar, existe uma teia no submundo de Kirkwall que sustenta o negócio de abrigar clandestinos sem o visconde, vulgo careca metidão, vir encher o saco. O problema é que há um indivíduo atrapalhando os negócios de todos nós. Seu nome é Cavril DiLuc. Ou, pelo menos, é assim que o vadio se identifica.

            Aveline questionou:

            — O que ele está fazendo exatamente?

            — Diante das autoridades, seus documentos constam como herdeiro direto de uma família de Hightown. Mesmo que ele nem chegou a ser radicalizado aqui, tem passe livre. A questão é que muitos o têm procurado para serem contratados como serviçais — tecnicamente, claro —, assim obtendo um emprego e sua mão aos olhos da comitiva do careca. Por trás disso, ele cobra taxas semanais de seus protegidos, investindo cada vez mais em sua mentira e lucrando com isso. Se ele não for pago, o refugiado é demitido. Tudo tecnicamente, claro — Athenril sorriu maliciosa.

            Selene franziu o cenho:

            — Temos que ameaçá-lo?

            — Oh, bem mais que isso, queridinha; vocês têm que eliminá-lo. E de preferência, trazer a cabeça para mim. Houve uma aposta entre os grupos que trabalham com isso e ficou combinado que DiLuc valerá três quintos dos lucros bimestrais.

            Um silêncio tenso ergueu-se entre o trio de recrutas. Athenril apenas encheu a própria caneca, esperando por qualquer reação dos humanos.

            Carver pigarreou:

            — Onde ele está?

            — Ele fica instalado num cantinho de Hightown. Posso levá-los lá amanhã, aproveitando a oportunidade para vê-los em ação bem de perto — o olhar da loira pairou sobre o escudo de Aveline.

Selene questionou:

            — Essa missão é diferente do que vocês costumam trabalhar, certo?

            Athenril afirmou:

            — Claro que sim. Somos ladrões, não mercenários. Talvez aconteça de ossos quebrarem e órgãos verem a luz do dia, mas sabe como é, são ossos do ofício! O caso de DiLuc é apenas um acerto de contas em nome da ordem do submundo. Mas e então? Vão ajudar ou ficarão apenas me encarando?

            — Estou dentro — de qualquer forma, é um criminoso, Aveline se prontificou.

            Carver e Selene responderam em uníssono:

            — Eu também.

            A elfa ergueu-se com um sorriso:

            — Ótimo! Me encontrem amanhã nos portões, por volta de meio-dia, e preparem-se para se instalarem na casa de Gamlen. Sinto que será o começo de uma grande parceria — tocou nos ombros dos irmãos Hawke. — E a propósito, me chamo Athenril, a Raposa.

            Ela realmente parece com uma, Selene concluiu.

            Assim como o combinado, Athenril encontrou-se com os recrutas por volta do meio-dia. Sem cerimônias, o grupo direcionou-se para o lado da feira, onde parte dos refugiados se instalara. Os rejeitados conversavam ou jogavam cartas, sem mais nenhuma esperança de começar uma nova vida na cidade-estado.

            A elfa guiou os humanos por uma ruela pouco movimentada, até chegarem num pátio abandonado, com um frondoso salgueiro ao centro.

            Numa das quinas taciturnas dos muros esburacados, uma fila estendia-se com paciência. Cada pessoa presente levava uma pequena bolsa a tiracolo ou em mãos.

            Um balcão separava os pagadores de um homem de aparência nobre, trajando roupas de veludo escarlate e couro escuro. Cercado por capangas e recebendo os tributos com expressão desdenhosa, não foi impossível reconhecer o alvo.

            A ladina estagnou:

            — Eu ficarei aqui. Vocês sabem o que fazer.

            Selene a fitou com curiosidade:

            — Como ele consegue agir aqui sem ninguém da guarda notar?

            — Os cavaleiros e templários têm mais o que fazer ao invés de virem vistoriar pátios abandonados — Athenril deu os ombros. — Agora, vão.

            Os três moveram-se para o campo de visão dos guardas e do povo, porém a aparição não os assustou.

            Carver ciciou para a irmã:

            — Você quer abordá-lo ou…

            — Pode ser. Não temos muita escolha mesmo — Selene respondeu sem vontade.

            Aveline revelou:

            — O que me consola é que estamos atrás de uma cabeça mafiosa.

            — Não podemos nos exaltar, acabamos de entrar no covil deles — a maga retrucou no mesmo tom desgostoso.

            Enquanto se aproximavam, uma jovem chegou diante de Cavril:

            — Aqui está taxa da semana, Ser.

            O falsário pegou a bolsa, contou as moedas. Olhou para a moça e suspirou:

            — Oh, pequena Hana, ninguém a contou? Reajustamos os valores. Faltam duas peças de ouro.

            Ela gaguejou:

            — Como?

            — Isso mesmo. Deixarei passar essa semana, mas na próxima não terá outra chance.

            — Mas, Ser DiLuc, havíamos combinado que…

            — Já falei — ele interrompeu rude. — Se quer permanecer sob meus cuidados, traga o valor certo.

            — Ganho tão pouco — Hana lamentou-se.

            — Ah, mas com o corpo que o Criador te deu, acho que você conseguirá bem mais — ele a olhou ligeiramente de alto a baixo. Dispensou: — Agora suma da minha frente. Próximo!

            Hana retirou-se com os braços ocultando o singelo decote, rubra de vergonha.

            Selene inspirou fundo e rosnou baixo:

            — Alguém pode me lembrar de castrá-lo antes de decapitá-lo?

            — Claro — Carver respondeu atônito, e Aveline compartilhava do mesmo sentimento que a maga.

            Sem notar, Selene moveu-se rápido o suficiente para alcançar o lugar do próximo na fila. Apenas naquele momento que Cavril deu-se conta da presença dos estranhos. O homem ignorou a fila e sorriu para a moça:

            — Bom dia, serah. Em que posso ser útil? Também precisa de algum favor meu?

            A maga ignorou a diplomacia:

            — Você costuma mandar as pessoas para as profundezas do submundo apenas para se sustentar?

            Cavril franziu o cenho perplexo. Balbuciou:

            — Não entendo o que quis dizer. A não ser que… Ah, sim — ele sorriu mordaz. — Ora, estamos todos nele, que diferença faz se as pessoas se afundarem mais um pouco? A vida é assim.

            Um dos mercenários, trajando uma armadura negra e elmo que cobria a face por completo, aproximou-se:

            — Ela está incomodando o senhor?

            — Não, não — Cavril fez um sinal com a mão para que o soldado se afastasse. Voltou-se outra vez para Selene: — O que vocês querem?

            A moça fingiu simpatia:

            — Apenas gostaria de recomendá-lo a parar de atrapalhar os negócios dos outros, antes que isso te arruíne.

            — O quê? Vai me dizer que as Serpentes Brancas te mandaram pra cá? Ou foi a Red Iron? Melhor ainda, a bruxa da Athenril — o criminoso fez uma expressão ameaçadora. — Está tentando causar uma boa impressão para eles deixarem você ficar? Bom para você. Mas não venha me atrapalhar. Próximo!

Selene insistiu:

            — Não será necessária força bruta se você apenas se sujeitar.

            Cavril apenas suspirou. Chamou:

            — Otelo.

            O mais alto dentre os mercenários aproximou-se. Não foi preciso Cavril ordenar as claras: o grupo de seis homens armados e com armaduras de insígnias obscuras tomaram seus machados de duas faces e avançaram contra o trio petulante.

            Aveline indagou incrédula à maga:

            — Você realmente acreditou que ele seria passivo?

            Selene sorriu com deboche:

            — Às vezes, fazer uma imagem de bonzinho vale mais pontos do que enfiar a faca na garganta de uma vez.

            Os três avançaram contra os capangas, e os serviçais de Cavril encolheram-se no canto oposto do pátio com pavor. Selene bateu o cajado no chão, elevando uma onda mental ao seu redor e repulsando um dos soldados, o qual caiu sobre o chamado Otelo. Aveline defendeu-se com o escudo, procurando uma trégua entre as machadadas agressivas de outro mercenário, e Carver barrava os ataques do cabo de um machado com a lâmina de sua espada. Em certo momento, o guerreiro conseguiu aplicar uma rasteira certeira em seu adversário, o qual perdeu o equilíbrio por um instante e deixou suas costas vulneráveis para o rapaz.

            Selene cansou-se de apenas lançar esferas de energia espiritual contra dois soldados, convocou seu familiar, correu em suas direções e, assim que ambos ergueram seus machados para atingi-la em cheio, ela rodopiou a ponta superior do bordão contra suas cabeças, a qual lembrava a extremidade de um mangual. Não era comum usar aquela parte, mas sua paciência havia esgotado há muito. Ambos tropeçaram, sentindo a dor em suas frontes mastigar seus neurônios.

            Aveline irrompeu com o escudo no inimigo insistente, ergueu sua espada e o atingiu de raspão no ombro. O mercenário moveu o machado e bateu contra a lâmina. Por um descuido, a arma caiu da mão da amazona e deslizou pelo chão. A loira inspirou fundo e pôs ambos os braços atrás do escudo, usando mais força do que antes. Aquela demonstração de energia maciça estatelou o mercenário, que também perdeu o foco e o machado deslizou de suas mãos.

            — Estamos quites agora — ela caçoou com uma risada esbaforida. Sem delongas, mais uma descarga contra o inimigo, o derrubando de costas.

            Carver enfrentava Otelo por sua vez, e o capanga de Cavril demonstrava uma destreza fora do comum. O Hawke foi surpreendido com a lâmina direita do machado roçando sua face. Imediatamente, o guerreiro esquivou-se, apertou o cabo da espada mais do que antes e a pôs atravessada diante de si, preparando sua defesa para um possível ataque frontal. Antes que um ou outro reagisse, o mercenário foi atingido por um vento gélido nas costas, o qual o prendeu desde a espinha até as solas metálicas no chão.

            Mal ele virou os olhos, Selene desferiu um golpe em seu rosto com força, estourando suas veias e ferindo sua visão sob o elmo, que desmanchou-se. Devido a dor e a surpresa, o mequetrefe desmaiou, e o peso do corpo fez o gelo que o detinha partir-se e prendê-lo contra o chão, de bruços.

            Os irmãos se fitaram. Selene questionou com incomum calmaria:

            — Você está bem?

            Aveline gritou enfurecida, chamando a atenção de ambos. Porém seu brado não era um pedido de socorro: finalmente recuperou sua espada e avançou contra o mercenário que a humilhou. Por pouco ele passou o machado por sua jugular, se ela não houvesse o atingido com ferocidade no abdômen.

            Após desenterrar a lâmina da arma do corpo morto, ela a guardou na bainha e caminhou na direção dos amigos. Os três notaram os olhares amedrontados dos refugiados, e viram que Cavril se escondera sob o balcão e choramingava:

            — Por favor, por favor, misericórdia. Eu prometo não dever mais nada a ninguém. Só me deixem em paz, por favor! Por favor…

            Selene respondeu fria:

            — Não podemos deixar sua cabeça sobre os ombros sendo que ela vale tanto quanto a sua vida medíocre.

            O falsário rastejou-se pelo chão, afastando-se das sombras dos recrutas de Athenril:

            — Não, por favor. Eu imploro. Não façam isso comigo, eu prometo não fazer mais mal a ninguém, juro pelos deuses, pela minha família. Por favor.

            Uma voz atrapalhou a intimidação:

            — Tudo bem, já deu. Eu cuido disso agora.

            Os três recordaram-se imediatamente que Athenril estava ali o tempo todo. A elfa contornou os corpos inertes dos mercenários e caminhou na direção de DiLuc. Ele ergueu-se trêmulo e pálido ao avistá-la:

            — Sabia que isso era obra sua.

            A elfa o agarrou pelo colarinho sobre o balcão, o puxou para perto de seu rosto e ciciou:

            — Se você não tivesse fugido tanto de nós quando viemos cobrá-lo gentilmente, não teria perdido seus cãezinhos agora.

            — Por favor, por favor…

            Ela chiou:

            — Fique quietinho e apenas me pague. Lembre-se que sua cabeça ainda é um objeto muito estimado para todos nós que estávamos nessa merda antes de você.

            — Pegue tudo o que tem no baú. Eu me retiro daqui — a vermelhidão do nervosismo mesclou-se com a pele pálida de medo de Cavril.

            — Ótimo — Athenril sorriu e o soltou. — E recomendo que você fuja o mais rápido possível, afinal os mercenários estão tão loucos quanto eu para brincar com seus restos mortais — virou-se para o trio e parabenizou: — Vocês passaram no teste. Bem-vindos a bordo.

            — Teste? — Carver e Selene se entreolharam.

            — Sim. Como eu disse, não somos mercenários. Estamos sujeitos apenas aos ossos do ofício.

            Aveline estranhou:

            — Então por que você enfatizou tanto que queria que tirássemos a cabeça dele?

            — Tudo fazia parte do plano — Athenril sorriu travessa. — A propósito, você luta de uma forma magnífica. Juro que vi uma leoa em seu lugar.

            Selene arqueou uma sobrancelha:

            — Então, na verdade, viemos aqui apenas para cobrá-lo?

            — Essa dívida existe há muito tempo, e ele nos evitava, afinal já conhecia todo o grupo. Exceto vocês. Sem contar que queria ver se vocês realmente estavam dispostos a serem fiéis a nós — Athenril gritou para o povo encolhido: — Voltem para as suas casas e procurem por outros fiadores. Agora as coisas voltarão a funcionar como o devido — fitou Carver: — E você, caro urso, ajude-me a carregar aquele baú ali.

            — Urso? — Carver fez uma careta.

            A loira revelou:

            — Acho que não cheguei a dizer, mas cada um do grupo tem um sobrenome semelhante a um codinome, conforme nossas personalidades ou forma de combate. Achamos isso divertido e ingressamos — apontou para cada um: — Selene é a loba, você é o urso, Aveline é uma leoa. Perfeito, não? Vamos, vamos — moveu a cabeça —, ainda tenho que correr até o casebre de Gamlen para contar que vocês se deram bem.

            Athenril foi à frente, Carver a seguiu com o baú sobre o ombro. Alguns passos atrás, Selene e Aveline conversavam entre si:

            — Acha que devemos ficar satisfeitos? — Aveline estava em dúvida.

            — É o melhor que podemos fazer. Sendo bem otimista, pagaremos a dívida antes do prazo se completar.

            — Será?

            Selene pensou por um instante. Proferiu:

            — Sinceramente, não sei. Mas tenho certeza de que não quero ficar na mesma toca que a raposa por mais de um ano.

            A amazona apenas meneou a cabeça.

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