Por Yasmin Alves (De Lua e Tinta)

            — E Flemeth realmente cumpriu o que prometeu — Selene pensou alto. Havia se encostado a bombordo para respirar o ar marinho e contemplar a noite em alto-mar. Aquilo era bem melhor do que olhar para a cara dos passageiros que dividiam a embarcação com sua família há tantos dias.

            A maga metamorfa evocou um portal mágico para os fugitivos. Antes que qualquer uma das pessoas desse um passo, a questionaram a respeito dos corpos de Bethany e Wesley.

            Flemeth encolheu os ombros:

            — São apenas cascas vazias; seus espíritos já estão a caminho do Esquecimento.

            — Por favor — Leandra insistiu —, não é costume de minha família deixar os corpos vulneráveis, sem um enterro digno.

            Carver tentou intervir, mas, antes que dissesse algo, a Bruxa agiu:

            — Já que faz tanta questão… — moveu uma das mãos e os corpos entraram em combustão. Em questão de segundos, os ossos e toda a matéria estouraram e esvoaçaram escarlates com o vento.

            — Agora entrem no portal. Antes que eu mude de ideia — ela ordenou sem escrúpulos.

            — Ela só tinha dezesseis anos…

            Selene ergueu a cabeça e avistou Carver lacrimoso mais à frente. Aproximou-se calma e discreta, atenta às palavras do irmão inconsciente de sua presença:

            — Por que não fui eu, a pedra no sapato dos Hawke? Ela tinha tanto o que viver!

            Ela pôs a mão em seu ombro:

            — Porque mais cedo ou mais tarde algum de nós partiria, e ninguém está preparado para se despedir.

            Carver secou as lágrimas:

            — Me sinto um pedaço de lixo, Sel. Não pude protegê-la e temo falhar contigo também.

            — Nascer como mago nesse mundo é perigoso por si só — sorriu sem alegria. — Foque seus esforços em cuidar de nossa mãe. Eu me viro com minhas próprias confusões.

            — Kirkwall é repleta de templários.

            — Eu sei. Eles podem ser como um bando de trolls amestrados — Selene encostou-se na balaustrada e olhou para as brumas escuras. — Mas conseguiremos nos manter a salvo. Me mantive longe de confusão por todos esses anos, não será difícil prosseguir com o plano.

            Os dois silenciaram-se por um instante e dedicaram-se a ouvir o mar rugir. Carver rompeu a trégua com um comentário hesitante:

            — Talvez… Antes o troll do que os templários.

            Selene apenas suspirou.

            — Não diga à mãe que eu falei isso.

            — Não sou demente, irmão.

            O guerreiro apenas meneou a cabeça e afastou-se, deixando a irmã sozinha com as ondas.

            — Terra à vista!

            O grito vindo da gávea soou tão alto que os tripulantes do canto mais remoto do navio ouviram com clareza.

            Selene despertou por completo quando as pessoas ao seu redor levantaram-se eufóricas para avistar Kirkwall. A jovem olhou para a mãe, que dividia o mesmo cobertor maltrapilho, e viu que ela não havia despertado.

            Deve ter sofrido com mais pesadelos, pensou preocupada. Leandra tivera febre alta por cinco dias há pouco, a ponto de alucinar. Selene teria a tratado com magia, se não houvesse tanta gente desconhecida por perto.

            Aveline apareceu e sentou-se próxima às duas e comentou:

            — Não há necessidade de pressa, ainda levaremos mais alguns minutos intermináveis para atracarmos.

            — Por isso mesmo que nem acordei minha mãe.

            — Ela está melhor?

            — Parece que sim. Quando chegarmos, tenho certeza de que ela ficará melhor.

            — O mar, às vezes, mexe com a saúde das pessoas — a mulher fitou Leandra com empatia.

            Selene meneou a cabeça:

            — Sim. Aliás, serah Aveline, você viu meu irmão?

            — Não precisa me chamar de serah, já disse — a amazona fez uma careta. — Ele está lá em cima com os apressados.

            — Ele também é — Selene brincou.

            — Já chegamos? — Leandra indagou sonolenta.

            A filha respondeu:

            — Quase, mãe. Quase.

            — Hawke, você levará o amuleto aos Dalish?

            — Assim que resolvermos nossos problemas, pode ser — a morena encolheu os ombros. Arqueou uma sobrancelha: — Tem alguma recomendação acerca disso?

            A loira admitiu:

            — Sempre serei uma pessoa desconfiada. Mas se a Bruxa não mentiu, talvez eu vá com você para cumprir o acordo. Afinal estávamos juntas lá.

            Selene fitou o escudo, que outrora pertencera a Wesley, ao lado de Vallen. Antes que gesticulasse algo, o capitão gritou do convés:

            — Preparem-se para desembarcar!

            Aveline se pôs em pé:

            — E lá vamos nós.

            — Finalmente um solo estável para pisar — Carver não escondeu seu alívio quando seus pés pousaram sobre o chão de pedra de Kirkwall. Virou-se para trás, ajustando a bagagem leve sobre o ombro e observou a mãe e a irmã descerem pela rampa.

            Ao sentir o vento tocar seu rosto e brincar com seu cabelo grisalho, Leandra sorriu. Apoiou-se no braço da filha e expirou satisfeita:

            — Estou em casa.

            O coração de Selene desapertou-se um pouco com aquela reação. Por mais que houvessem perdido tanta coisa, ainda havia chances para um recomeço.

            — Estão bem? — Carver as indagou assim que aproximaram-se dele.

            Antes que uma das duas respondesse, um crescente burburinho nos portões da cidade chamou a atenção, acompanhado por uma reação incrédula de Aveline:

            — Não pode ser.

            O general dentre os templários à porta repetiu rude:

            — É isso mesmo o que vocês ouviram; a cidade está lotada, não há mais espaço para refugiados!

            — Isso é um absurdo, viemos de tão longe! — uma mulher protestou.

            Um elfo completou:

            — Pagamos muito para vir aqui. Precisamos de soluções já! Sem contar que nossos navios acabaram de partir.

            O homem da guarda repetiu:

            — Não há vagas!

            — Que confusão — Carver coçou a cabeça com nervosismo.

            Selene estremeceu:

            — O que faremos?

            Leandra insistiu:

            — Nós entraremos. Gamlen pode convencê-los disso, afinal ele é um Amell.

            Aveline sugeriu:

            — É melhor arranjarmos uma abordagem astuta para passá-los para trás.

            O rapaz do grupo virou-se para a irmã:

            — O que acha, Sel?

            Hawke respondeu com sarcasmo:

            — Acho que odeio a hierarquia dessa cidade desde já. Ter templários à porta é uma recepção maravilhosa.

            — Ora, vamos lá, eles só te atacarão se você fizer algo extremamente imprudente — Aveline franziu o cenho. — Diferente de um campo remoto, numa cidade não é possível que eles sujem as próprias mãos à luz do dia.

            A maga murmurou:

            — Lembrarei com carinho de trancar janelas e portas quando eu for dormir.

            Carver grunhiu:

            — Pare de drama, você é perfeita para abordar qualquer pessoa ranzinza sem usar magia nenhuma.

            — Qualquer pessoa, exceto você — Selene sorriu cínica. Cedeu: — Ótimo, vamos lá, então. O que são pontapés metálicos comparados a uma viagem quase perdida, não?

            Leandra pediu:

            — Tomem cuidado.

            O trio aproximou-se da confusão. Selene inspirou fundo e ergueu a voz:

            — Certo, então com quem devemos conversar para a sua cidade ter espaço num piscar de olhos?

            O cavaleiro a fuzilou com o olhar:

            — Ah, sempre a mesma conversa. Estou farto da petulância de vocês — voltou-se à multidão. — Querem entrar? Conversem com o capitão Ewald. Se vocês não forem partidos em pedacinhos!

            Um silêncio tenso ergueu-se. Hawke indagou:

            — Onde ele está?

            — Nos portões de acesso aos bairros.

            Sem delongas, a jovem, o irmão e a amazona contornaram o cavaleiro e os templários.  A multidão os observou com surpresa e temor.

            Antes de sumirem dentro dos muros, Carver andou até a mãe, segurou suas mãos e pediu:

            — Nos aguarde aqui, por favor.

            — Certo — Leandra meneou a cabeça.

            Aveline refletiu durante o percurso:

            — Não é frieza da parte deles dizerem que não há mais espaço.

            Carver sentenciou:

            — Com espaço ou não, não podemos voltar para trás.

            — Eu sei disso. Quis dizer que não é uma desculpa deslavada; muitos que residiam em Ferelden vieram para cá.

            Selene murmurou:

            — Espero que possamos encontrar Gamlen o mais rápido possível.

            Assim como o general informou, Ewald estava à frente dos portões de ferro, tentando acalmar os ânimos de mais refugiados.

            Um dos presentes apontou:

            — Vocês não têm mais espaço para nós e nossos navios partiram há dois dias. Como querem que voltemos sem nenhum tostão?

            O capitão respondeu simples:

            — O visconde está enviando mensagens e provisões para virem navios até nosso porto e levá-los a outro lugar.

            — Mande seu visconde a puta que pariu! Estamos exaustos e passando fome desde que chegamos!

            Selene aproximou-se de Ewald, impelindo Aveline e o irmão sutilmente. O capitão notou sua aproximação e a encarou.

            A amazona fitou Carver e questionou perplexa:

            — Por que você sempre a deixa falar ao invés de intervir também?

            — O que tenho de impaciência com diplomacia, ela tem de lábia. Sempre foi assim — Carver sussurrou com um meio sorriso. — Sem contar que uma garota bonitinha e teimosa é uma verdadeira carta na manga.

            — Por favor — a maga pediu a Ewald —, viemos de muito longe para ficarmos ao relento.

            — Tentaremos prover acampamentos para os refugiados até os navios chegarem.

            — Na verdade, minha família não precisa de uma nova casa. Temos um tio aqui; ele chama-se Gamlen Amell.

            Ewald refletiu por um instante:

            — Amell? Esse nome não me é estranho.

            — Ele reside em Hightown. Nossa família é muito estimada aqui.

            — O único Amell que conheço, na verdade, é um falido charlatão. De qualquer forma, tentarei encontrá-lo para a senhorita.

            O mesmo refugiado que fora visto a reclamar interrompeu:

            — Não, não, não! Esperem um pouco aí! Nós estamos aqui há cinco dias tentando entrar, e a madame consegue em cinco minutos?

            O capitão rebateu com uma ponta de impaciência:

            — Em nenhum momento falei que ela pode ficar.

            — Até parece que alguém procura por um parente com desinteresse, nessa altura do campeonato!

            Carver aproximou-se da irmã e resmungou:

            — Sabia que isso aconteceria.

            Finalmente o rapaz ergueu sua cimitarra:

            — Cansei do tratamento desdenhoso de vocês. Acho que as coisas ficarão bem mais interessantes se incendiarmos essa merda — ordenou: — Avante, homens!

            Sem mais delongas, todos empunharam suas armas e avançaram contra Ewald. Carver e Aveline juntaram-se ao capitão da guarda a fim de subjugarem os rebeldes. Selene tentou fazer o mesmo, mas um dos alvoroçados a interceptou, usando um feitiço de rejeição, o qual empurrou o corpo da jovem por alguns metros para trás.

            A maga ergueu-se tonta, e seu inimigo em particular correu em sua direção com as mãos soerguidas emanando energia esverdeada.

            — Também tenho truques sem o cajado — a moça grunhiu, moveu as mãos como se gerasse uma esfera e a lançou. A energia uniforme tomou a forma de um familiar lupino, que embateu o rebelde sem hesitar.

            Aveline nocauteava os adversários com o cabo da espada contra as nucas desprotegidas. Isso quando não aplicava uma descarga veemente com o escudo.

            Carver, por sua vez, não utilizava cautela: se ele mesmo não enviasse aqueles arruaceiros para o Esquecimento, mais cedo ou mais tarde fariam coisa pior — de acordo com sua concepção. Embora fossem poucos os que ousaram aproximar-se das voltas sangrentas de sua espada, a lâmina prateada impregnou-se grosseiramente ao escarlate outrora vívido.

            O mago não mais lutava contra o familiar de Selene: um atirava porções de energia fulgurante contra o outro. A moça utilizava seu bordão, o qual recuperara após o lobo distraí-lo. A cada golpe, ambos moviam-se para desviar do ataque alheio. Porém, num momento de infeliz distração, Selene foi atingida no antebraço esquerdo. Trincou os dentes ao sentir a ferida queimar. Bateu o cajado no chão e a terra ergueu-se ao seu redor como uma barricada, destruindo a formação de pedras daquela parte do pátio. Enquanto o adversário calculava o ângulo certo para atingi-la outra vez, ela uniu uma boa parte de sua energia na mão esquerda e um clarão resplandeceu no local. O mago foi arremessado brutamente contra a pilastra mais próxima, a ponto de trincar o revestimento.

            Selene abaixou os braços e olhou para onde Carver estava: os guerreiros derrubaram o resto do grupo.

            — Pelo Criador, o que houve aqui?! — um templário chegou ao local naquele momento.

            Ewald guardou a espada na bainha:

            — Está tudo bem agora… não graças a vocês — bronqueou o recém-chegado. — Chame pelos outros, precisamos por ordem antes que destruam Kirkwall.

            — Sim, senhor — o rapaz balbuciou e correu.

            O capitão voltou com sua expressão pacata para a dupla que o auxiliou:

            — Obrigado por ajudarem, mas realmente não posso deixar que fiquem; são ordens superiores.

            Carver indagou:

            — Podemos ver nosso tio, pelo menos?

            — Claro, pedirei para que o procurem por vocês.

            Selene aproximou-se e estagnou ao lado de Aveline. Ewald ergueu o olhar e, por um breve momento, sua expressão oscilou entre perplexidade e empatia. Por fim, ele emitiu:

            — Obrigado a você também, serah…— franziu o cenho e demonstrou dúvida sobre o nome da maga desconhecida.

— Hawke.

— Obrigado também, serah Hawke — sorriu e afastou-se.

            Assim que o homem tomou distância o suficiente, Selene apertou a área lesionada com uma careta de dor. Aveline sugeriu:

            — Deixe que eu cuide disso. Sei tratar ferimentos de origem arcana, você não pode se esgotar mais.

            A jovem pensou em rejeitar a ajuda, porém o olhar estreito de Carver sobre ela lhe impediu. Deu um meio sorriso:

            — Tudo bem.

            Assim que as duas assentaram-se nos degraus mais baixos da escadaria que levava aos portões, Carver anunciou:

            — Já que limpamos o caminho, irei chamar nossa mãe.

            Por que coça tanto?, a maga apalpava a bandagem que Aveline pôs sobre o machucado. Estavam há três dias às portas de Kirkwall e nenhum sinal de Gamlen.

            Sob as sombras dos edifícios mais altos do local, o grupo de viajores aguardava por alguma notícia. Leandra olhava para o movimento da rua com ansiedade, Aveline e Carver mantinham os braços cruzados, e Selene encolhia-se sobre os joelhos nos degraus da pequena escadaria.

            O jovem resmungou:

            — Acho que estão nos fazendo de idiotas.

            Leandra contestou:

            —Ele deve estar fora, em alguma viagem de negócios.

            Do jeito que o capitão disse, acho que não, Selene respondeu mentalmente.

            Aveline comentou:

            — Pelo menos, há uma possibilidade de vocês entrarem em Kirkwall. Eu ainda estou pensando em como fazer isso.

            — Junte-se a nós — Carver sorriu astuto. — Parentes distantes também são aceitos.

            A loira riu fraco:

            — Não, obrigada.

            O rapaz olhou para a irmã inexpressiva. Suspirou e sentou-se ao seu lado:

            — Você está muito calada hoje. Diga algo.

            Selene encolheu os ombros:

            — Nada a declarar.

            — Você está assim desde que chegamos.

            — É só um ferimento estúpido e templários circulando pelas ruas. Tudo passa.

            Devido ao tom de voz baixo, apenas ele ouviu suas palavras. A confortou num cicio:

            — Você se recuperará logo, logo. Estamos todos exaustos, tudo bem se você oscilou um pouco na batalha. Estamos vivos.

            Os olhos castanhos voltaram-se para o irmão, e ela sorriu. Carver grunhiu, desviando o olhar:

            — Às vezes, você age como uma criancinha. Não queria apenas exercer meu lado irmão mais velho com você nesse estado.

            — Em comparação a Bethany, você era mais velho por uma pequena questão de horas, não venha com essa — a maga franziu o cenho. Assoprou: — Vou ficar bem. Só fico pensando que poderia ter sido pior…

            — Eles não a pegarão enquanto eu estiver aqui, Sel. Eu prometo.

            Irmãos, Aveline sorriu diante da cena e voltou o rosto para a direção oposta, tentando disfarçar sua reação.

            Leandra chamou a atenção de todos ao exprimir:

            — Finalmente.

            Todos olharam para o mesmo lado que a mulher e avistaram um homem calvo, cabelo grisalho, olhar dourado e tez morena vir na direção do grupo.

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